IFOOD GANHA CONCORRENTE DE PESO E COMEÇA REVER SUAS TAXAS

Por Luiz Barbosa

A entrada da gigante chinesa Meituan no Brasil, por meio da sua marca de entregas Keeta, representa mais do que apenas um novo player disputando espaço com nomes consolidados como iFood, 99Food e Rappi. Com um investimento expressivo de R$ 5,6 bilhões, a Keeta promete não apenas agitar o mercado, mas também beneficiar profundamente entregadores, restaurantes e até mesmo os próprios concorrentes.

Com o anúncio oficial da sua chegada, a movimentação no setor foi imediata. O iFood, líder de mercado, rapidamente atualizou seus valores mínimos de pagamento aos entregadores, indicando que a concorrência já começou a surtir efeito. A partir de hoje, entregadores que utilizam motos ou carros receberão pelo menos R$ 7,50 por entrega em rotas de até 4 km. Para ciclistas, o valor mínimo será de R$ 7, com acréscimo de R$ 1,50 por quilômetro adicional e um extra de R$ 3 para entregas adicionais na mesma rota.

Além disso, os restaurantes também estão sendo contemplados com melhorias. As comissões cobradas pelo iFood nos seus planos permanecem em 12% (Plano Básico) e 23% (Plano Entrega), mas agora há mais clareza na comunicação sobre alternativas como o plano com mensalidade fixa e zero comissão, o que torna o ambiente mais transparente e competitivo.

Mas por que a concorrência faz tão bem ao iFood? A seguir, analisamos os principais benefícios que a presença de novos concorrentes traz para um líder consolidado como o iFood — e, por consequência, para o ecossistema como um todo.


1. Estímulo à Inovação Contínua

Com um novo concorrente de peso na jogada, o iFood será pressionado a inovar constantemente. A busca por diferenciação e eficiência pode resultar em melhorias tecnológicas nos aplicativos, nos algoritmos de roteamento, nas promoções aos consumidores e na experiência dos restaurantes parceiros.

Antes da chegada da Keeta, a sensação de domínio absoluto poderia levar à estagnação. Agora, com a ameaça de perder mercado, o iFood deve investir ainda mais em P&D (pesquisa e desenvolvimento), algo que beneficia toda a cadeia produtiva.


2. Melhoria das Condições para Entregadores

Historicamente, as condições de trabalho dos entregadores sempre foram motivo de debate público. A concorrência direta impõe a necessidade de oferecer melhores condições para manter a base de entregadores ativa e leal.

O reajuste dos valores mínimos pagos por entrega é um sinal claro disso. Com a Keeta prometendo atrair entregadores com pacotes mais vantajosos, o iFood saiu na frente com a primeira atualização dos valores, sinalizando que a competição pode levar a uma corrida por melhores condições de trabalho — uma vitória para os trabalhadores.


3. Mais Poder de Escolha para Restaurantes

Os restaurantes, que muitas vezes se viam reféns de um único aplicativo, agora ganham poder de barganha. Com novas opções como a Keeta, os empresários do ramo alimentício podem negociar melhores condições, escolher a plataforma que mais se alinha ao seu modelo de negócio ou até operar em múltiplas plataformas, aumentando seu alcance e potencial de lucro.

A existência de planos alternativos, como o do iFood com mensalidade fixa e zero comissão, demonstra uma maior flexibilidade da plataforma para manter os parceiros satisfeitos.


4. Benefícios Diretos para o Consumidor Final

Mais concorrência significa mais promoções, melhores prazos de entrega e, possivelmente, preços mais competitivos. O consumidor tende a ser um dos maiores beneficiados desse embate, principalmente nas grandes cidades onde a oferta de serviços será abundante.

É razoável esperar que tanto o iFood quanto a Keeta — além de outras plataformas — intensifiquem suas campanhas de fidelização, com cupons, programas de pontos e serviços de entrega cada vez mais rápidos e eficientes.


5. Profissionalização do Setor

A entrada de um gigante global como a Meituan eleva o padrão de concorrência. Isso deve forçar os competidores locais a se profissionalizarem ainda mais, não só nas operações logísticas, mas também em aspectos legais, fiscais, trabalhistas e ambientais.

O iFood, por já estar estabelecido no Brasil, possui um conhecimento profundo do mercado nacional. Isso o coloca em vantagem competitiva, mas também o obriga a reforçar sua estrutura organizacional, suas práticas de ESG (governança ambiental, social e corporativa) e sua reputação pública.


6. Diversificação e Regionalização de Serviços

A presença de um novo player pode levar à especialização de serviços em nichos ou regiões específicas. O iFood pode optar por investir ainda mais em mercados regionais, atender bairros periféricos com mais eficiência ou criar subprodutos adaptados a contextos locais.

Essa regionalização pode ser especialmente positiva para cidades do interior e comunidades afastadas dos grandes centros, muitas vezes mal atendidas por plataformas de entrega.


7. Fortalecimento da Identidade de Marca

O embate com a Keeta também serve como catalisador para o iFood reforçar sua identidade nacional. Enquanto a Keeta traz consigo a força de uma multinacional chinesa, o iFood pode se posicionar como a marca brasileira que conhece o país de ponta a ponta.

Esse apelo ao sentimento de pertencimento pode ser um trunfo emocional valioso em campanhas publicitárias e na comunicação com o público.


8. Expansão de Parcerias Estratégicas

Para manter sua posição de liderança, o iFood poderá buscar novas parcerias com empresas de tecnologia, empresas logísticas, startups e até governos locais. O objetivo: ganhar agilidade, inovação e apoio institucional para enfrentar os desafios da nova concorrência.

Isso tende a gerar um efeito colateral positivo: o fortalecimento do ecossistema de inovação brasileiro.


Conclusão

A chegada da Keeta ao Brasil é um marco no setor de entregas e já começa a produzir efeitos práticos. A resposta imediata do iFood, com atualização nos pagamentos a entregadores e manutenção de condições competitivas para restaurantes, mostra que a concorrência pode ser um motor poderoso de transformação positiva.

Mais do que uma ameaça, a presença de novos concorrentes pode ser uma oportunidade de ouro para o iFood rever estratégias, reforçar laços com seus parceiros e evoluir. No fim das contas, a concorrência bem estruturada não enfraquece o líder — ela o torna mais forte e mais necessário.

Em um mercado com bilhões em jogo e milhões de pessoas envolvidas, ganha quem entrega mais valor — não só comida.


Luiz Barbosa é administrador, consultor empresarial e criador de soluções em mobilidade urbana. Atua no setor de tecnologia e logística, com projetos voltados para entregadores e microempreendedores no Brasil.

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