Por Luiz Barbosa – Digaí Pernambuco

Uma recente pesquisa da Vidalink, empresa especializada em planos corporativos de bem-estar, acende um sinal de alerta sobre a saúde mental dos jovens brasileiros. O estudo revelou que a Geração Z — formada por pessoas nascidas entre 1997 e 2012 — lidera o uso de medicamentos voltados para questões emocionais, como antidepressivos e ansiolíticos, no ambiente corporativo.

O levantamento, que analisou 273.626 unidades de medicamentos consumidas ao longo do último ano por 58.949 colaboradores de 165 empresas brasileiras, apontou que tanto a Geração Z quanto os Millennials (nascidos entre 1982 e 1996) estão no topo do consumo desses remédios. Porém, é entre os mais jovens que o uso cresce de forma mais expressiva.

PRESSÃO PRECOCE

Especialistas atribuem esse fenômeno a uma combinação de fatores sociais, econômicos e culturais. A Geração Z entrou no mercado de trabalho em meio a transformações profundas: avanço tecnológico acelerado, instabilidade econômica, insegurança sobre o futuro, cobrança por produtividade, excesso de informações e comparação constante nas redes sociais.

Além disso, muitos desses jovens iniciaram sua vida profissional em um cenário de pandemia, o que agravou quadros de ansiedade e depressão. A fragilidade emocional, somada à dificuldade de acesso a políticas efetivas de saúde mental nas empresas, tem contribuído para o uso recorrente de psicotrópicos como forma de alívio imediato.

A NORMALIZAÇÃO DO USO

Segundo o levantamento da Vidalink, os antidepressivos e ansiolíticos são os principais tipos de medicamentos utilizados. Embora o uso desses remédios, quando devidamente acompanhado por profissionais, possa ser benéfico, especialistas alertam para o risco da “medicalização da vida”, ou seja, o hábito de recorrer a fármacos para lidar com situações emocionais que poderiam ser tratadas com terapias, apoio psicológico e mudanças estruturais no ambiente de trabalho.

“Estamos diante de uma geração que não quer apenas salários e cargos. Eles querem sentido, propósito e equilíbrio. Quando o ambiente de trabalho não oferece isso, o reflexo aparece na saúde mental”, afirma a psicóloga corporativa Mariana Tavares.

EMPRESAS PRECISAM AGIR

O cenário exposto pela pesquisa exige atenção imediata das lideranças empresariais. Programas de saúde emocional, acompanhamento psicológico contínuo, práticas de escuta ativa e ambientes menos tóxicos são algumas das medidas urgentes para conter esse avanço silencioso.

“A pesquisa mostra dados concretos, mas por trás deles há histórias de jovens exaustos, inseguros e sobrecarregados”, destaca Luiz Barbosa, editor do portal Digaí Pernambuco. “Se não houver uma mudança real no modelo de gestão e nas relações de trabalho, o custo emocional — e também financeiro — será altíssimo para empresas e para a sociedade.”


UM PROBLEMA ESTRUTURAL, NÃO INDIVIDUAL

Apesar do foco nos jovens, é fundamental compreender que o problema não está exclusivamente nos indivíduos, mas na estrutura do mercado de trabalho atual. A cobrança por desempenho constante, metas agressivas, jornadas longas e o medo do desemprego criam um ambiente que favorece o adoecimento psíquico.

A psiquiatra Clarissa Freitas, especialista em saúde ocupacional, alerta que “os sintomas de ansiedade e depressão são muitas vezes tratados com medicamentos como se fossem problemas isolados, quando, na verdade, refletem um ambiente de trabalho adoecedor. O medicamento é um alívio temporário, não a cura.”

O PAPEL DA EDUCAÇÃO E DA CONSCIÊNCIA DIGITAL

Outro ponto de atenção é o impacto do mundo digital sobre a Geração Z. Nativos digitais, esses jovens cresceram sob influência direta das redes sociais, onde a comparação constante e a busca por validação são gatilhos para insegurança emocional.

A ausência de uma educação emocional nas escolas e universidades também agrava o cenário. Muitos chegam ao mercado despreparados para lidar com frustrações, pressões e conflitos, recorrendo a remédios antes mesmo de explorar outras formas de cuidado.

A RESPONSABILIDADE SOCIAL DAS EMPRESAS

Com o aumento dos casos de burnout e afastamentos por transtornos mentais, cresce a responsabilidade das empresas não apenas com o desempenho dos seus colaboradores, mas com a saúde deles. “Não se trata mais de um benefício extra, mas de uma necessidade organizacional”, afirma Juliana Lopes, consultora de RH.

Programas internos de acolhimento psicológico, capacitação de lideranças para identificar sinais de sofrimento emocional e criação de políticas que favoreçam o equilíbrio entre vida pessoal e profissional são medidas que já vêm sendo adotadas por empresas que se destacam em clima organizacional.

UM ALERTA PARA A SOCIEDADE

A crescente medicalização dos jovens trabalhadores é um reflexo de uma sociedade que adoece os seus membros mais produtivos. E, se não for freado, esse processo comprometerá o futuro do trabalho, das famílias e da própria economia.

“Precisamos parar de tratar o jovem como frágil e começar a ouvi-lo com seriedade. Eles não estão doentes porque são ‘fracos’, estão doentes porque vivem num mundo que exige demais e acolhe de menos”, afirma Luiz Barbosa.

CONCLUSÃO: PARA ALÉM DOS NÚMEROS

A pesquisa da Vidalink nos oferece números impressionantes, mas o mais importante é olhar para além deles. Cada comprimido consumido representa uma tentativa de equilíbrio, um pedido silencioso de socorro, uma forma de lidar com uma realidade muitas vezes insustentável.

É hora de dar nome ao problema: exaustão emocional crônica. E mais do que isso, é hora de agir. Enquanto o mercado não se humanizar, as farmácias continuarão sendo os consultórios mais acessados por uma geração inteira em busca de paz.

Digaí Pernambuco seguirá acompanhando este debate, defendendo o protagonismo juvenil e cobrando mais humanidade nas relações de trabalho. Porque saúde mental não é luxo — é direito.


Luiz Barbosa é administrador, professor e jornalista. Dirige o portal Digaí Pernambuco e atua em defesa da juventude, do trabalho digno e da saúde emocional como pilares do desenvolvimento humano e social.

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