
Fogueiras que iluminam a alma: A força econômica e social das festas juninas no Nordeste
Por Luiz Barbosa – DigAí Pernambuco
No coração do Brasil, quando junho se aproxima, o Nordeste inteiro se veste de cores vivas, cheiros inconfundíveis e sons que embalam a alma do povo: é tempo de São João. Mais do que uma simples celebração religiosa ou uma festividade folclórica, as festas juninas são um fenômeno cultural, social e econômico de proporções gigantescas que movimentam milhões de reais, geram empregos, valorizam a identidade regional e fortalecem os laços comunitários.
Do sertão às capitais, o mês de junho transforma vilarejos em palcos gigantes, onde a cultura popular brilha com intensidade. De Caruaru, em Pernambuco, a Campina Grande, na Paraíba; de Mossoró, no Rio Grande do Norte, a Aracaju, em Sergipe; a força junina reverbera nos arraiais, nos palcos, nas quadrilhas, nas fogueiras, no forró e nas tradições que atravessam gerações.
A Economia que Dança ao Som do Forró
O impacto econômico das festas juninas no Nordeste é gigantesco. Somente em 2024, segundo dados da Empetur (Empresa Pernambucana de Turismo), Caruaru movimentou cerca de R$ 500 milhões durante os 30 dias de São João. Em Campina Grande, esse valor chegou a ultrapassar R$ 600 milhões, de acordo com a prefeitura local.
Esses números refletem uma cadeia produtiva pulsante: comerciantes de comidas típicas, costureiras de trajes juninos, artesãos, decoradores, músicos, técnicos de som e luz, produtores culturais, donos de hotéis e pousadas, motoristas de aplicativos, barraqueiros e ambulantes, todos colhem os frutos dessa grande colheita cultural.
A festa aquece o turismo regional de forma única. Com programação que mistura artistas locais e nacionais, os polos juninos atraem milhões de visitantes. Só Caruaru recebeu mais de 3 milhões de turistas em 2024. A ocupação hoteleira chegou a 100%, com listas de espera e aumento nas diárias. Os voos para a região ficam lotados, e as rodoviárias ganham movimento de réveillon.
A Festa de São João é, portanto, uma importante locomotiva para as economias locais. Municípios pequenos como Arcoverde (PE), Senhor do Bonfim (BA), Estância (SE) e Patos (PB) também registram impactos econômicos positivos que ajudam a movimentar o comércio local por todo o segundo semestre.
Tradição: A Alma que Vive nas Fogueiras
Porém, não é apenas de cifras que se faz o São João nordestino. Por trás das bandeirolas e dos balões, pulsa uma força simbólica ancestral que conecta o povo com suas raízes, com sua fé e com seus valores. A festa é, sobretudo, um espaço de reafirmação da cultura regional e dos vínculos humanos.
Celebrar o São João é lembrar das origens rurais, da vida no campo, da fartura das colheitas, da solidariedade entre vizinhos. É honrar os ensinamentos dos avós e preservar a identidade sertaneja com orgulho e resistência. As quadrilhas, com seus passos marcados e enredos que muitas vezes contam histórias de amor, superação e fé, são verdadeiras encenações da alma nordestina.
Em muitos municípios, a preparação para os festejos começa meses antes: há ensaios de quadrilha, confecção de roupas, decoração das ruas, escolha do rei e da rainha do milho. É um trabalho coletivo que une jovens e idosos, escolas, igrejas, associações culturais e prefeituras em torno de um mesmo ideal: celebrar a vida e a cultura.
A Festa que Educa e Inclui
As festas juninas também cumprem um papel fundamental de inclusão social e educação popular. Em diversos pontos do Nordeste, comunidades carentes se mobilizam para promover arraiás populares que oferecem lazer gratuito, ocupando espaços públicos com arte e cidadania.
Em escolas, as festas juninas são utilizadas como ferramenta pedagógica. Professores abordam temas como o folclore brasileiro, a geografia do semiárido, a história do forró e a importância da agricultura familiar. As crianças aprendem sobre suas raízes dançando, cantando e brincando.
Além disso, muitos projetos sociais usam a temática junina como estratégia de fortalecimento comunitário. Na periferia de Salvador, por exemplo, o projeto “Arraiá da Esperança” envolve mais de 300 jovens em oficinas de dança, música, teatro e culinária, promovendo autoestima e afastando-os da vulnerabilidade social.
O Valor Imaterial de um Povo
As festas juninas também representam um antídoto contra a pressa e o individualismo das grandes cidades. Na contramão da hiperconectividade e do consumismo, o São João resgata valores humanos essenciais como a partilha, a convivência e a simplicidade. É um tempo de reencontro, de sentar na calçada para prosear, de dividir o milho assado, de dançar coladinho ao som de um triângulo, zabumba e sanfona.
O sertanejo, mesmo diante das adversidades climáticas e econômicas, encontra na Festa de São João um momento de alento e alegria. É um tempo sagrado de esperança, onde a fé em Santo Antônio, São Pedro e São João se mistura com a certeza de que, com união, tudo é possível.
Desafios e Oportunidades
Apesar de sua importância cultural e econômica, as festas juninas enfrentam desafios. A descaracterização das tradições em alguns grandes eventos, que substituem o forró pé-de-serra por estilos musicais que pouco dialogam com a cultura nordestina, preocupa estudiosos e mestres da cultura popular.
É necessário que os governos invistam em políticas públicas que valorizem os artistas locais, os grupos de quadrilha e os mestres da cultura. A festa deve ser espaço de modernização com respeito à tradição. A tecnologia pode ajudar na divulgação e na profissionalização do evento, mas sem apagar sua essência.
Ao mesmo tempo, surgem oportunidades. O fortalecimento do turismo cultural, a exportação do forró como patrimônio imaterial brasileiro, e a profissionalização das festas juninas como produtos culturais são caminhos promissores. A proposta de tornar o São João Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, pleiteada pelo Brasil na Unesco, reforça esse movimento.
Conclusão: O São João Como Patrimônio Vivo
As festas juninas são mais do que celebrações sazonais. São, de fato, o maior espetáculo popular do Brasil, com raízes profundas, impacto econômico relevante e valor simbólico incalculável. No Nordeste, o São João é identidade, é resistência, é celebração da vida e da cultura.
Preservar essa tradição é preservar a alma do povo nordestino. E, enquanto houver uma fogueira acesa, um acorde de sanfona e um coração batendo no compasso do forró, haverá também esperança, pertencimento e orgulho de ser nordestino.
Por Luiz Barbosa – DigAí Pernambuco
Recife, junho de 2025

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