
RECIFE: A CAPITAL ESQUECIDA PELO PODER PÚBLICO
Por Luiz Barbosa – DigAí Pernambuco
Poucas cidades no Brasil reúnem tanta relevância histórica, cultural e econômica como o Recife. Conhecida como a “Veneza Brasileira”, por seus rios e pontes, e celebrada como berço de movimentos libertários como a Revolução Pernambucana de 1817 e a Confederação do Equador, Recife já ocupou papel de destaque no cenário nacional. Sua localização estratégica no litoral nordestino, sua força comercial, seu polo tecnológico e universitário, e sua rica herança cultural a colocaram entre as cidades mais promissoras do país ao longo do século XX.
Contudo, o que se vê hoje é um retrato amargo de uma cidade que sangra silenciosamente. O Recife vive um paradoxo: é historicamente grande, mas administrativamente abandonada. Uma capital que clama por socorro.
Um legado de glórias
Fundada oficialmente em 12 de março de 1537, Recife nasceu como porto de apoio à cidade de Olinda, mas rapidamente ganhou protagonismo com a chegada dos holandeses, em 1630. Durante o domínio de Maurício de Nassau, a cidade viveu uma das fases mais estruturadas de sua história: foram erguidos canais, pontes, ruas calçadas e edifícios públicos de referência. Ali se instalou a primeira sinagoga das Américas e também a primeira tipografia do Brasil. Recife era cosmopolita muito antes do termo se popularizar.
No século XX, tornou-se capital econômica do Nordeste, com forte presença industrial, portuária e educacional. Surgiram centros como a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o Porto Digital — um dos maiores parques tecnológicos do Brasil — e uma efervescente cena artística e cultural, berço do frevo, maracatu, manguebeat e de artistas como Chico Science, Lenine, Antonio Nóbrega e Ariano Suassuna.
Geografia privilegiada, oportunidades desperdiçadas
Geograficamente, Recife é abençoada. Possui um dos maiores litorais urbanos do país, é cortada por rios que poderiam servir para mobilidade e turismo, e está inserida no coração da Região Metropolitana mais populosa do Norte-Nordeste. Mas, mesmo com essas credenciais, a cidade tem sido maltratada por sucessivas gestões públicas.
A geografia, que deveria ser aliada do desenvolvimento, virou obstáculo. O adensamento urbano mal planejado levou à proliferação de morros ocupados irregularmente e áreas de risco sujeitas a deslizamentos, sobretudo durante os períodos chuvosos. Os alagamentos se tornaram rotina, e a mobilidade urbana colapsou diante da falta de planejamento metropolitano.
O metro quadrado mais caro do Nordeste — sem contrapartida
De acordo com levantamentos recentes do setor imobiliário, Recife possui o metro quadrado mais caro do Nordeste e um dos mais elevados do Brasil. Bairro como Boa Viagem, Jaqueira e Parnamirim superam, em média, cidades como Belo Horizonte e Curitiba.
Esse fenômeno não é impulsionado por qualidade de vida, segurança ou infraestrutura — como ocorre em outras capitais — mas por escassez de solo, especulação imobiliária e concentração de investimentos em áreas muito restritas da cidade. O resultado é uma cidade profundamente desigual, onde quem pode pagar vive em condomínios fortificados, enquanto o restante enfrenta o abandono.
Colapso da segurança pública
Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Recife e sua Região Metropolitana apresentam uma das maiores taxas de homicídios do país. A sensação de insegurança é constante: assaltos em ônibus, furtos em semáforos, explosões de caixas eletrônicos e violência contra mulheres fazem parte do cotidiano.
A Guarda Municipal é insuficiente, a Polícia Militar sofre com falta de efetivo, e o sistema de monitoramento por câmeras funciona de forma intermitente. Não à toa, o medo tem moldado a rotina da população e contribuído para a evasão de moradores.
Saúde e Educação em crise
A rede de saúde pública do Recife está, há anos, em situação precária. Faltam médicos, insumos, medicamentos e infraestrutura. Hospitais importantes como o da Restauração funcionam em regime de superlotação constante, com pacientes nos corredores e cirurgias sendo adiadas.
Na educação, o cenário também preocupa. Escolas municipais enfrentam falta de manutenção, evasão escolar e déficit de professores. Os estudantes da rede pública têm tido prejuízos severos na aprendizagem, agravados após a pandemia, sem que políticas eficazes tenham sido implementadas para reversão do quadro.
Desemprego e desalento
Apesar de ser um polo universitário com dezenas de faculdades e instituições técnicas, Recife amarga uma das maiores taxas de desemprego entre as capitais brasileiras. Jovens qualificados saem da universidade e encontram um mercado estagnado, com oportunidades escassas, baixa remuneração e informalidade crescente.
Empresas têm migrado para cidades vizinhas como Jaboatão, Cabo de Santo Agostinho e até Caruaru, que oferecem incentivos fiscais, melhor infraestrutura e menos burocracia. O que era para ser um centro irradiador de desenvolvimento tornou-se um exportador de talentos.
O êxodo silencioso
Recife está encolhendo — e não é apenas demograficamente. Dados recentes do IBGE apontam que a cidade perdeu população nos últimos censos. Moradores têm abandonado a capital em busca de melhor qualidade de vida em cidades do interior de Pernambuco, Paraíba e até no Sudeste e Sul do Brasil.
O motivo? Falta de perspectiva. Falta de esperança. Famílias cansadas da violência, do custo de vida alto e da má gestão pública. Recife, que já foi cidade de chegada, hoje se transforma em cidade de partida.
Onde falhou a gestão pública?
A derrocada do Recife é resultado direto da ausência de planejamento urbano, da inércia administrativa e do distanciamento entre os gestores e a população. Investimentos são concentrados em obras de maquiagem, enquanto problemas estruturais são empurrados com a barriga. A participação popular é restrita, e os ciclos políticos parecem girar em torno dos mesmos nomes, que se alternam sem renovar as ideias.
A capital pernambucana tem enorme potencial, mas precisa urgentemente de um plano de resgate. Uma cidade como Recife não pode se contentar em sobreviver. Precisa voltar a liderar.
Um chamado à reconstrução
Recife precisa ser repensada. Precisa de uma gestão que respeite sua história, que valorize sua cultura, que escute seu povo e que tenha coragem de enfrentar os desafios que foram negligenciados por décadas.
Recife é maior que sua crise. É mais rica que seus indicadores. É mais bela do que mostram os rankings. Mas precisa, com urgência, de uma nova atitude. Não se trata apenas de infraestrutura — trata-se de dignidade.
A cidade que um dia foi a capital intelectual do Brasil clama por um novo tempo.
Luiz Barbosa
Editor do canal DigAí Pernambuco
Instagram: @profluizbarbosa
YouTube: DigAí Pernambuco

Deixe um comentário