Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, eternizou o animal na música “Apologia ao Jumento”, onde canta:
“O jumento é nosso irmão / Foi ele quem ajudou o homem do sertão / A carregar a água, o fardo e o pão.”

Por Luiz Barbosa – DigAí Pernambuco

Durante séculos, o jumento foi muito mais do que um animal de carga no sertão nordestino. Ele foi amigo, transporte, força de trabalho, resistência, símbolo de bravura e sobrevivência diante da seca, da distância e do esquecimento do Estado. Agora, esse mesmo animal que carregou a história do sertanejo no lombo, corre risco iminente de desaparecer.

Segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o Brasil perdeu 94% de sua população de jumentos nos últimos 30 anos. Entre 2018 e 2024, nada menos que 248 mil jumentos foram abatidos, com destaque para o estado da Bahia, onde funcionam os três frigoríficos autorizados pelo Serviço de Inspeção Federal (SIF) para esse tipo de atividade. O destino desses animais? A indústria chinesa, interessada na produção de ejiao, um suplemento feito com colágeno retirado da pele dos jumentos e amplamente consumido na Ásia como tônico revitalizante.

A HISTÓRIA QUE CAMINHOU SOBRE QUATRO PATAS

No imaginário popular, o jumento ocupa lugar de destaque. Foi ele quem ajudou a desbravar os sertões inóspitos do Brasil colonial. Sem estrada, sem veículos motorizados, sem infraestrutura, era sobre os lombos desses animais que se transportava água, comida, mercadorias e até esperança.

Nas zonas rurais do Nordeste, os jumentos ainda hoje são utilizados em tarefas do dia a dia, como puxar carroças, transportar material agrícola, ou mesmo levar crianças à escola em áreas de difícil acesso. O jumento era — e em muitos lugares ainda é — parte da família sertaneja.

Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, eternizou o animal na música “Apologia ao Jumento”, onde canta:
“O jumento é nosso irmão / Foi ele quem ajudou o homem do sertão / A carregar a água, o fardo e o pão.”

O que se vê agora é o oposto: o animal que ajudou a construir o sertão está sendo dizimado, com anuência silenciosa das autoridades e o desinteresse quase total de entidades de proteção animal.

A INDÚSTRIA DA MORTE

A matança em massa tem um destino certo: a exportação de peles para a China, onde o produto ejiao é valorizado como um poderoso suplemento. Para abastecer esse mercado, empresas chinesas passaram a firmar parcerias com frigoríficos no Brasil, sobretudo no Nordeste, onde há grande concentração de jumentos abandonados ou soltos.

A lógica comercial é cruel. Os animais são capturados, muitas vezes de forma irregular, confinados em condições precárias e abatidos com métodos que nem sempre respeitam padrões mínimos de bem-estar. Apesar de toda essa cadeia envolver sofrimento e exploração, poucas vozes se levantam em defesa do jumento.

O que choca é o silêncio quase absoluto das organizações protetoras dos animais, que se mobilizam por cães e gatos, mas ignoram os jumentos — como se houvesse uma hierarquia na dor e na vida.

O DESCASO E O ABANDONO PÚBLICO

A situação é ainda agravada pela negligência do poder público. Mesmo diante de números alarmantes e da pressão de especialistas e ambientalistas, o Estado brasileiro continua autorizando a existência de frigoríficos voltados exclusivamente ao abate de jumentos.

A criação de políticas públicas de preservação da espécie é inexistente. Não há campanhas educativas, incentivos à adoção dos animais, nem programas de proteção reprodutiva. O resultado é trágico: se nada for feito, o jumento brasileiro poderá entrar na lista oficial de animais ameaçados de extinção em menos de uma década.

IMPORTÂNCIA BIOLÓGICA E CULTURAL

Além de sua relevância histórica e cultural, o jumento tem papel importante no equilíbrio ecológico das regiões semiáridas. É um animal resistente, de fácil manejo e que pode conviver de forma sustentável com o ambiente. Sua extinção trará impactos em cadeia, inclusive para famílias que ainda dependem dele para atividades econômicas de subsistência.

Mais do que isso, o desaparecimento do jumento seria uma perda simbólica imensa. Representaria a desconexão definitiva com uma parte essencial da história do sertanejo — um povo que sempre foi negligenciado e agora vê também seu principal companheiro de caminhada sumir sem deixar rastro.

INDIFERENÇA OU CRIME SILENCIOSO?

Há quem prefira acreditar que tudo isso é apenas parte de uma cadeia econômica e que os jumentos, por não terem mais “função”, deixaram de ser úteis. Esse pensamento é perigoso e reflete a lógica descartável que já vitimou outros animais e que, agora, ameaça mais uma espécie fundamental ao Brasil.

O que se vê, na prática, é um crime silencioso contra um dos maiores símbolos da resistência sertaneja. Não há justificativa moral, ética ou ecológica para permitir o extermínio de uma espécie tão relevante.

O Brasil precisa acordar. É urgente criar ações de preservação, programas de revalorização dos jumentos, incentivos à adoção por agricultores familiares, campanhas de conscientização, além de um esforço legislativo que limite ou proíba o abate desses animais para fins comerciais.

UM CHAMADO À REFLEXÃO

Enquanto o mundo clama por sustentabilidade, respeito à biodiversidade e proteção animal, o Brasil caminha na contramão, permitindo o extermínio de um animal símbolo da luta e da vida do sertanejo.

Será preciso ver o jumento extinto para que a sociedade finalmente se mobilize?

Essa matéria é um apelo. Um apelo pela memória, pela dignidade e pela continuidade de um animal que representa muito mais do que carga: representa um povo.

Se nada for feito, não restará sequer a sombra do que um dia foi o mais fiel amigo do sertanejo.


Luiz Barbosa – DigAí Pernambuco
Jornalismo com propósito, história e compromisso com as raízes.

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