
POR EXCESSO DE OFERTA, ALGUNS PRODUTOS NACIONAIS PODEM ‘BARATEAR’
Por Luiz Barbosa – Pernambuco Em Tempo
A decisão do governo dos Estados Unidos de impor uma tarifa de 50% sobre o aço e o alumínio brasileiro — além de ampliar barreiras comerciais contra itens como café, carne e celulose — provocou uma reação imediata no mercado nacional. A medida, que visa proteger a indústria americana, pode gerar efeitos inesperados na economia brasileira, tanto positivos quanto negativos.
Enquanto produtores brasileiros perdem competitividade no exterior, analistas apontam que, internamente, os preços de alguns produtos essenciais podem até cair, devido ao aumento da oferta. No entanto, outros segmentos podem sofrer encarecimento, pressionando a inflação e o consumo das famílias.
Entenda a tarifa
O aumento das tarifas faz parte de um pacote de medidas do governo norte-americano que busca reduzir a dependência de importações estratégicas, especialmente da China e de países emergentes. O Brasil, um dos maiores exportadores mundiais de commodities como carne bovina, celulose, café e aço, foi diretamente afetado.
Com isso, produtos brasileiros se tornam mais caros e menos atrativos para o consumidor americano, reduzindo as exportações nacionais para aquele mercado.
Impacto nos setores produtivos
Carne bovina
O setor pecuário é um dos mais impactados. Segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (ABIEC), os EUA são um dos principais destinos da carne premium brasileira. Com a nova tarifa, frigoríficos podem redirecionar a produção para o mercado interno, o que pode aumentar a oferta de carne no Brasil e reduzir, ainda que pontualmente, os preços ao consumidor.
Contudo, especialistas alertam que o alívio pode ser temporário. “Se o Brasil não encontrar rapidamente novos mercados, o excesso de oferta pode pressionar os preços por pouco tempo, mas o setor tende a se ajustar, reduzindo abates e voltando a subir os preços”, explica o economista Raul Andrade, da FGV.
Café
Outro produto simbólico da balança comercial brasileira, o café, também entra na mira da nova tarifação. O Brasil é o maior exportador mundial e os EUA representam cerca de 20% desse mercado.
A tendência é que o café de exportação passe a ser absorvido internamente, aumentando a oferta e forçando uma queda de preços, especialmente no mercado de grãos especiais. Para o consumidor final, isso pode significar uma xícara mais barata — ou ao menos uma desaceleração no ritmo de altas constantes.
Combustíveis
Embora o petróleo não esteja diretamente listado na tarifa americana, o mercado energético sofre impacto indireto. Com a redução da demanda por aço e outros insumos industriais, há retração nas cadeias logísticas, o que pode afetar os preços dos combustíveis no médio prazo.
Por outro lado, se a política de preços da Petrobras continuar atrelada ao mercado internacional, o efeito sobre o consumidor brasileiro será limitado. “Mesmo com uma leve folga no mercado global, não devemos ver reduções substanciais nas bombas de combustível”, alerta a analista de energia Juliana Monteiro.
Aço e alumínio
O setor siderúrgico, diretamente atingido, sente o baque com mais intensidade. As exportações de aço brasileiro aos EUA, que representam cerca de 30% do total, devem cair fortemente, o que aumentará a disponibilidade do insumo no mercado nacional.
A boa notícia é para a construção civil e a indústria de base, que poderão comprar aço mais barato. A má notícia é o risco de demissões no setor, já que o excedente de produção poderá levar a cortes e paralisações em unidades produtivas.
Celulose e papel
Com uma sobreoferta interna causada pela restrição ao mercado norte-americano, a indústria de papel e celulose também deverá ter insumos mais baratos. Isso pode impactar positivamente empresas de embalagens e até mesmo o setor editorial, que sofre há anos com os altos custos de produção.
O consumidor ganha ou perde?
A resposta depende do perfil de consumo. Quem depende de proteína animal, café ou materiais de construção pode ver algum alívio nos preços no curto prazo. Já segmentos mais sensíveis ao mercado global, como combustível e eletrônicos, tendem a se manter pressionados.
“Em linhas gerais, o consumidor pode ganhar momentaneamente com a queda de alguns preços, mas a economia como um todo perde, porque exportações são fonte de geração de emprego, divisas e investimento”, resume o professor de comércio exterior Marcelo Vasconcelos, da Universidade Federal de Pernambuco.
A reação do governo brasileiro
O Ministério das Relações Exteriores classificou a medida americana como “injustificada” e já articula junto à Organização Mundial do Comércio (OMC) uma resposta diplomática. No entanto, o Brasil evita, por enquanto, retaliações diretas, com receio de comprometer outros acordos comerciais em andamento, especialmente com a União Europeia.
Alternativas e próximos passos
A curto prazo, o Brasil deve buscar diversificar seus destinos de exportação, fortalecendo acordos com países asiáticos, do Oriente Médio e América Latina. “O grande desafio é manter a produção sem desvalorizar o produto e sem perder competitividade”, analisa a consultora de mercado externo Mariana Esteves.
Além disso, há um apelo crescente por maior industrialização da cadeia produtiva. Em vez de exportar apenas matéria-prima, o Brasil pode aproveitar o momento para investir na agregação de valor, criando empregos e fortalecendo o consumo interno.
Conclusão
A tarifa de 50% imposta pelos EUA sobre produtos brasileiros lança uma sombra sobre o setor exportador, mas também acende um alerta de oportunidade: fortalecer o mercado interno, diversificar destinos e apostar na industrialização. O impacto imediato pode ser uma leve queda nos preços de alimentos como carne e café, mas os efeitos de longo prazo dependem das escolhas econômicas e políticas que o Brasil fizer a partir de agora.
Por Luiz Barbosa – Pernambuco Em Tempo

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